A figura do pastor lusitano Viriato, embaixador da Serra de São Vicente, liga Portugal e Espanha na época em que parte de Portugal e Espanha formavam Lusitânia, a terra dos vetões como Viriato.
Para conhecer a história do pastor, general e "fora-da-lei" é necessário retroceder ao século II a.C. Nesta época, a Península Ibérica (Hispânia) estava dividida em territórios que eram ocupados por distintas tribos. A invasão romana iniciava-se pelo Nordeste da península e, ano após ano, estendia-se em direcção ao Noroeste.
A Lusitânia englobava Portugal, Extremadura e parte de Castela - incluindo a Serra de São Vicente - e Andaluzia Ocidental.

Viriato foi uma das personagens históricas mais fascinantes da história da Península Ibérica. Um desses homens que aparecem num momento crítico e que com a sua actuação conseguem influenciar e decidir o futuro de todo um povo. Durante a conquista romana da Península, Viriato foi o homem que personificou a resistência e a valentia dos indígenas contra o invasor, da mesma forma que uma pequena localidade da Celtibéria, Numância, representa a dimensão colectiva em defesa de estes valores.
A origem das guerras lusitanas, e de Viriato como personagem histórica, surge da combinação de vários elementos. Por um lado existia um problema demográfico dos povos indígenas motivado pela escassez agrária e, por outro lado, a chegada dos romanos que orientavam a invasão com uma política de vencer a resistência dos indígenas e consolidar o seu domínio territorial e político.
O inicio do conflito, que incendiou a Península, dando origem às guerras lusitanas e celtibéricas, teve lugar no ano 151 a.C..
Suplicio Galba, pretor da Hispânia Ulterior, socorreu uma cidade aliada que tinha sido atacada pelos lusitanos - que tinham quebrado os pactos anteriores subscritos com os romanos ante a escassez de recursos que tinham à disposição - e consegue derrotar os resistentes lusitanos, contudo durante a perseguição cai numa emboscada e perde 7.000 homens. Posteriormente Galba invade a Lusitânia, saqueando-a. Os lusitanos, atemorizados, decidem renovar o tratado que tinham pactuado com o antecessor de Galba e que eles próprios tinham violado.
O historiados grego Apiano narra desta forma os acontecimentos: "Foram recebidos favoravelmente e [Galba] pactou com eles, fingindo lamentar o estado em que por necessidade se viam, de se entregarem aos saques, de iniciarem a guerra e de faltarem aos compromissos assumidos. «A pobreza dos vossos solos e a indigência em que viveis é o que vos força a fazer estas coisas. Eu darei terra boa aos amigos necessitados e distribui-la-ei para a sua colonização sem tacanhice, dividindo-a em três lotes.» - disse-lhes Galba. Atraídos por estas palavras, deixaram as suas próprias terras, partindo para um local preparado por Galba, que os dividiu em três grupos e conduziu, cada um deles, a um determinado local ordenando que permanecessem aí até que voltasse para lhes oferecer um local definitivo.
Dirigindo-se aos primeiros, ordenou-lhes que, como amigos que eram, entregassem as armas e, uma vez concluída a entrega, acurralou-os dentro de uma cerca e enviou um batalhão de soldados romanos e ordenou a morte de todos, ainda que estes se lamentassem aos deuses e invocassem o acordo jurado que tinham pactuado. De igual forma, com igual rapidez, Galba ordenou a morte dos integrantes do segundo grupo e do terceiro, que ignoravam por completo o que tinha acontecido ao primeiro."
Esta atroz matança provocou o levantamento geral conhecido por "Guerras Lusitanas". A partir deste momento, o conflito transborda as causas que o tinham provocado e deixa de ser apenas um problema económico e demográfico, mas sim um repúdio a uma ordem injusta imposta pelos romanos e, mais ainda, uma legítima sede de vingança que inspira o mais desconcertados. Ao mesmo tempo, a certeza de que ante um inimigo cruel e injusto, que não respeitou a honra que corresponde à sua cultura, não haverá outra solução que não seja vencer ou morrer na luta.
Viriato foi um dos que caiu na rede mortal de Galba que, vendo como eram degolados os seus companheiros, consegue escapar à matança e, desde esse momento, não pensa em nada mais que vingar as suas mortes. Nas palavras do maestro García y Bellido este é o momento em que Viriato "entra na História, e entra rodeado de sangue, de traição e ardendo em santa ira". Desde esse momento, Viriato viveria para perseguir os romanos e os seus aliados, não só em encruzilhadas e caminhos, como antes, mas sim procurando-os para batalhas maiores, enviando não pequenas quadrilhas, mas sim verdadeiros exércitos, de vários milhares de homens decididos a tudo. O motivo já não era apenas o roubo de gado, nem a vingança mesquinha de uma tribo contra outra, mas era sim a aniquilação total do inimigo.
Desconhece-se a sua data e lugar de nascimento, que poderia ser tanto a portuguesa Serra da Estrela, como a Serra Morena ou qualquer outro ponto da imensa Lusitânia, como por exemplo a zona montanhosa e limítrofe que era a Serra de São Vicente.
O historiado Schulten situa o nascimento de Viriato na Serra da Estrela, em Portugal, de uma forma determinada: "Viriato é originário da Lusitânia Ocidental que confina com o oceano, e precisamente da montanha. A sua pátria parece ser a Serra da Estrela, que domina o país situado entre o Tejo e o Douro, a Lusitânia propriamente dita. Ainda hoje uma raça livre e selvagem com os seus rebanhos de ovelhas e cabras habita este país entre privações e solidão". Segundo este mesmo historiados, Viriato teria o seu centro de operações principal localizado num local denominado Mons Veneris (Monte de Vénus) pelos latinos, identificado com a Serra de São Vicente.
Fonte: CLRTTE



